Prefeituras do RS planejaram compra de remédios do Kit Covid em 2021 mesmo após ineficácia comprovada, diz organização

Levantamento foi feito pelo Transparência Brasil junto ao banco de dados do Tribunal de Contas do Estado. Licitações somam R$ 650 mil. OMS e Ministério da Saúde não recomendam tratamento precoce. O ano é 2021 e municípios no Rio Grande do Sul ainda planejaram a compra de medicamentos do chamado Kit Covid, que já têm a ineficácia comprovada cientificamente no tratamento contra o coronavírus e cujo uso não é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O apontamento foi feito pela organização Transparência Brasil com base no banco de dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS). Ministério da Saúde tem parecer contrário ao uso de cloroquina em pacientes internados com Covid OMS anuncia a ineficácia de quatro medicamentos contra o coronavírus No total, 40 prefeituras declararam licitações ao Licitacon (sistema de controle do TCE) para compra de ivermectina e hidroxicloroquina neste ano. Os contratos somam R$ 650 mil. G1 tentou contato com a Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs), mas, até a publicação, não havia obtido retorno. Não há irregularidade na compra nem na distribuição desses remédios à rede municipal. O que chama a atenção da entidade é que no campo do objeto da licitação constavam os termos "kit Covid" ou a referência ao tratamento precoce, o que não é recomendado pela comunidade científica, já que alguns desses medicamentos não têm este fim. Como são pregões, o formato permite a compra de acordo com a demanda. Logo, nem todos os municípios chegaram a mexer os cofres públicos e pagar pelos remédios. Não foi o caso de Itaqui, cidade da Fronteira Oeste com quase 38 mil habitantes, que gastou cerca de R$ 40 mil em 20 mil caixas de azitromicina, segundo o TCE. A prefeitura, no entanto, nega que o remédio tenha sido usado como "kit Covid". "A Prefeitura de Itaqui informa que não adquiriu os chamados 'kits Covid'. Apenas realizou a compra de itens que fazem parte da lista básica de medicamentos que são prescritos pelos médicos da rede municipal, inclusive para pacientes Covid-19", disse a assessoria de comunicação em nota. O contrato da licitação data de 8 de março de 2021. Na descrição do objeto do contrato consta "Medicamentos para o enfrentamento da pandemia causada pelo vírus Covid-19". Outra cidade que adquiriu ivermectina e cloroquina foi Passo Fundo, no Norte do estado. Em junho, a prefeitura adquiriu 4 mil comprimidos de hidroxicloroquina por quase R$ 6 mil. Do ano passado para cá, as licitações, que incluiam ivermectina, somaram R$ 125.550. A secretária municipal de saúde, Cristine Pilati, que também é médica infectologista, justificou as compras explicando que elas ocorreram para atender à demanda da comunidade médica local. "Não é protocolo. A prefeitura não indica que seja feito o uso desses medicamentos como forma de tratamento precoce. Confiamos na ciência. No entanto, há uma demanda forte de médicos que alegam que têm o direito de prescrever essas medicações e que elas precisam ser distribuídas pela rede pública. Compramos em junho, mas não devemos comprar mais", afirma Cristine. 'Política e charlatanismo' "Uma das coisas que a pandemia deixou evidente foi a conduta heterogênea da conta médica", conta o médico Eduardo Fernandes de Oliveira, que atua na atenção primária de saúde de Porto Alegre. Segundo ele, isso poderia dar indícios da conduta de médicos que optam por prescrever o kit Covid para seus pacientes, que é descrita em Passo Fundo. "Existe uma questão política aí aliada a um charlatanismo médico. Esses médicos não estão se baseando naquilo que a gente tem na literatura. Eles se baseiam na impressão médica, muitas vezes pulando a evidência científica, quando o que a ciência tem trazido é que esses medicamentos não só não têm eficácia comprovada contra a Covid como o uso está associado à piora do quadro do paciente", explica. Desde 2020, a ineficácia dos remédios contra a covid já havia sido comprovada e seu uso não é recomendado pela OMS. OMS: Hidroxicloroquina não deve ser usada como prevenção contra a Covid 'Kit covid é kit ilusão': os dados que apontam riscos e falta de eficácia do suposto tratamento Estudo em mais de 30 países afirma ineficácia de 4 medicamentos Um dos municípios que planejava a compra dos medicamentos, mas mudou de ideia, foi Gramado, na Serra. A ideia era adquirir 77 mil caixas de hidroxicloroquina e ivermectina ao custo de quase R$ 78 mil. No entanto, a compra foi reconsiderada. "Houve um mal-entendido. Médicos de um hospital local atestaram a eficácia, o que não é comprovado cientificamente. Adquirimos ano passado quando não se sabia muito a respeito. Quando veio a comprovação, paramos de distribuir", conta o secretário de saúde da cidade, Jeferson Moschen. Uma das cidades que mais registraram no Licitacon licitações para aquisição dos medicamentos foi Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana. No total, somaram R$ 360 mil entre 2020 e 2021. Eles seriam destinados para o Hospital Municipal Getúlio Vargas. No entanto, a Fundação Hospitalar Getúlio Vargas, que administra o hospital, afirma que nunca indicou o kit Covid para pacientes. "A Fundação Hospitalar Getúlio Vargas (FHGV) [...] não indica qualquer tipo de kit Covid para pacientes, preconizando vacina, distanciamento controlado, uso de máscara e lavagem de mãos como forma de prevenção da covid-19", disse em nota. Conforme dados do TCE, de 1º de dezembro de 2020 até 27 de outubro de 2021, foram gastos R$ 10.363,53 desses medicamentos em todas as unidades geridas pela FHGV. Os 40 municípios que planejaram a compra em 2021, segundo o Transparência Brasil: Ajuricaba Alegrete Alegria Aratiba Arroio do Tigre Augusto Pestana Balneário Pinhal Boa Vista do Buricá Boa Vista do Incra Campina das Missões Capão da Canoa Caxias do Sul Cotiporã Dona Francisca Doutor Maurício Cardoso Entre-Ijuís Estância Velha Esteio Gramado Guaporé Itacurubi Itaqui Júlio de Castilhos Lajeado Lajeado do Bugre Passo Fundo Picada Café Portão Putinga Salto do Jacuí Santo Ângelo Santo Augusto São Francisco de Assis São José do Inhacorá São Nicolau São Valentim Sapiranga Seberi Taquari Vale do Sol VÍDEOS: Tudo sobre o RS

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